ciúme, samu.
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este texto aborda temas sensíveis e potencialmente desencadeantes, incluindo suicídio, automutilação, alucinações psicóticas e abusos.
há uma pedra sobre o meu peito. não pesa, não me deixa voar. é uma imagem absurda e, ao mesmo tempo, precisa: ela existe na forma do meu ciúme. não é algo que me esmaga, mas me prende; não me mata, mas me impede de existir em liberdade. pensando bem… me esmaga. sou incapaz de acreditar que o outro não pertence a mim.
eu quero tudo pra mim, mas quando tenho, não sei o que fazer com tanto. guardo até apodrecer nas minhas mãos.
Melanie Klein descreveu esse mesmo desejo como algo primário: a fantasia de incorporar o outro, de possuí-lo inteiramente, como se fosse possível devorar sua existência. o ciúme nasce aí, no terror de não possuir tudo, de sempre restar algo de fora. tenho pavor, nojo, jamais serei capaz de dividir o que toquei. até mesmo a psiquiatria contemporânea reconhece esse fio tênue: o DSM-5 descreve o ciúme delirante como quadro clínico, mas, no limite, o que difere o “patológico” do “normal” não é a intensidade do sentimento, mas sua capacidade de paralisar ou violentar. e não há como negar: meu ciúme me paralisa.
sou tão humana e é nojento. a própria humanidade me moldou para rejeitar o humano. sendo autista, me notei mais humana do que o grande resto. eu sinto mais, eu capto mais, eu sofro mais. e, no entanto, esse excesso me isola. ser mais humana do que os humanos é perceber o que todos escondem, sentir o que ninguém quer sentir. todos são uns mentirosos! nojentos e mentirosos!
ontem toquei alguém e agora quero essa pessoa perto de mim. quero como se fosse extensão do meu corpo, da minha respiração. não quero dividi-la com ninguém. mas sei, mesmo no meio desse desejo, que ela não me pertence. e mesmo se pertencesse, não me pertenceria. obviamente nenhum afeto é garantido! não entendo ninguém. não entendo os humanos. cada vez que tento me aproximar descubro um idioma secreto que obviamente eu não sei falar. por que raios sou mais humana? por que sinto tanto, penso tanto, sofro tanto, enquanto os outros não? por que não podem sentir como eu sinto?
você colocou os dedos dentro do meu corpo e não entende que eu deixei porque te quero. te quero tanto que estou deixando você encostar em mim. parabéns pra você, minha vulnerabilidade foi entregue de presente. é o meu desespero de ser entendida. mas você não entende. ninguém entende. parece que todo mundo toca, mas não vê. pega, mas não sente. entra, mas não fica. isso tudo é estressante. as pessoas falam, mas não falam o que falam. elas mentem! elas dizem que estão contigo sem realmente sentir a palavra. vocês não entendem a força da palavra? eu entendo!!! eu entendo demais… entendo tanto que quero me destruir por isso.
hoje não era para eu estar aqui. não era para ter dedos sobre o teclado, nem respiração para escrever. eu já tinha decidido.
mas me sedei.
e agora escrevo medicada porque caso contrário não escreveria. estaria sendo examinada como um corpo sem vida.
já acionei todos os números possíveis. já toquei todos os alarmes. o samu já sabe meu nome, minha pele, meus braços. já me prenderam, me amarraram, me olharam com nojo. já me viram como estatística. às vezes nem perguntam mais, apenas me chamam pelo apelido improvisado que inventaram para mim. conhecem meus braços marcados, conhecem os corredores do meu quarto, sabem onde fica a porta do banheiro. aquele carro já me viu nua de pudores e de vida, já me levou, com a boca cheia de seda química. eles me olham com um misto de pressa e impaciência. e eu não esqueço esses olhares. são frios e tão burocráticos. como pode uma menina tão jovem, fresca, crua, deitada na maca com as veias abertas e o peito arfando? como pode essa menina estar tentando morrer enquanto eles trabalham sem parar para sustentar um mundo que não para nem para respirar?
interrompi a produção do dia, roubei de alguém um socorro. esse alguém queria viver. tudo culpa minha. sou horrível.
cadê minha mãe para me acalentar? cadê meu pai para me segurar no colo e dizer que o mundo não vai me engolir? cadê todo mundo? não tive abraço para me proteger dos monstros — então os monstros entraram em mim e eu tive que dormir com eles.
aqui dentro, mora uma criança faminta por colo. faminta demais. carrego essa criança nos meus pulsos, na minha garganta, nos meus textos. tudo o que vocês enxergam de mim é ela.




Tenho trabalhado na análise que a menina que desespera por um colo, que marcou a pele por tantos anos como se gritasse ali que a protegessem de si mesma, regride até o desamparo infantil e por isso fica tão assustada. Não tem nada pior que esse desamparo, essa sensação de que sem o outro não me alimento, não me limpo, nem saio do lugar, igual um bebê com as pernas balançando e o peito cansado de chorar. E ainda não tenho fórmula mágica, tenho me guiado pela perspectiva que algo vai preencher o desamparo, em algum momento, que tem algo lá fora